Linha do Minho

jul 6, 2020

Atualmente, milhares de pessoas efetuam deslocações pendulares no eixo geográfico do Noroeste, desde Valença até ao Porto, passando por cidades como Viana do Castelo, Barcelos e Famalicão.

A centenária Linha do Minho, não obstante o desinvestimento generalizado na rede ferroviária em favor da proliferação de autoestradas, continua com potencial para ser a principal infraestutura de mobilidade da região.

A eletrificação da linha já está concluída entre Porto e Viana do Castelo, estando a decorrer as obras para a conclusão até Valença, previsivelmente ainda no decurso do corrente ano.

Mas então, quais as razões para os comboios continuarem a andar vazios enquanto autoestradas como a A28 estão cada vez mais congestionadas?

  1. Preços

A título de exemplo, veja-se na tabela abaixo a comparação dos preços de bilhetes Braga/Viana do Castelo – Porto Campanhã, nos comboios Urbano/Expresso e Regional/Interregional (com paragens em todas as estações/rápido) e o respetivo custo/km para as distâncias de 54km e 81km, respetivamente.

Comboio Braga-Porto Viana-Porto
Preço Custo/Km Preço Custo/Km
Paragem em todas 3,25€ 0,06€ 6,85€ (*) 0,08€
Rápido 8,00€ 0,10€

(*) – Transbordo em Nine para Urbano

Em ambas as ligações, os comboios que garantem tempos de ligação minimamente competitivos com o transporte em automóvel particular são os ‘rápidos’. É precisamente nestes comboios que o preço da Linha do Minho se agrava substancialmente com um preço/km 67% superior ao do Ramal de Braga.

O Plano de Apoio à Redução Tarifária (PART) determinou preços de passes multimodais de 40€ nas Áreas Metropolitanas (AM) do Porto e de Lisboa e em várias outras regiões do país, nalguns casos em articulação com as AM, como na CIM Tâmega e Sousa que beneficia de um passe multimodal nas mesmas condições para as ligações ao Porto, incluindo a Linha do Douro até Marco de Canavezes.

Na Linha do Minho não existem passes multimodais nem preços PART. Usando como referência Viana do Castelo apresentamos exemplos de preços de passes mensais para três ligações frequentes a partir desta cidade: Barcelos – 77,85€; Valença – 111,85€; Porto – 174,20€. Importa ainda referir que um passe em autocarro Viana-Porto (AV Minho) custa 78€.

Verifica-se assim que, quer para deslocações esporádicas, quer para deslocações pendulares, os preços praticados na Linha do Minho praticamente afastam o comboio das opções de mobilidade na região e constituem um factor de iniquidade perante outras regiões do país.

  1. Tempos de ligação

A recente eletrificação até Viana do Castelo permitiu a chegada do Intercidades a esta cidade com uma ligação direta diária a Lisboa em cada sentido.

Há alguns anos os comboios internacionais Porto-Vigo foram suprimidos e substituídos pelo ‘Celta’, com duas ligações diárias em cada sentido, que inicialmente nem sequer parava em Viana do Castelo e que, incompreensivelmente, continua a não parar em Barcelos e em Famalicão.

Estes comboios pouco contribuem para a mobilidade na região uma vez que não são acessíveis aos passageiros com passe e têm preços de 8,40€ e 12,15€ para Celta e IC – 2ª classe, respetivamente, na referida ligação.

No entanto permitem demonstrar que, racionalizando as paragens, mesmo com as condições atuais da linha, é possível ter tempos de ligação competitivos com o automóvel.

Na ligação que temos vindo a usar como exemplo, e porventura a mais paradigmática da Linha do Minho, o Celta apenas com paragem em Nine, demora 1:04 e o IC com seis paragens intermédias demora 1:07. No mesmo percurso, o Interregional tem entre 8 e 12 paragens intermédias e demora entre 1:15 e 1:36.

Torna-se evidente que, neste percurso, um ‘Rápido do Minho’ com ou sem ligação a Vigo/Lisboa e com paragens intermédias nas principais cidades – Barcelos; Nine (Braga); Famalicão – conseguirá tempos de ligação pouco superiores a uma hora.

Veja-se o exemplo da vizinha Galiza em que a ligação rápida Corunha-Vigo, numa distância de mais de 150Kms, demora 1:20 e apenas efetua paragens nas principais cidades – Santiago; Villagarcia; Pontevedra.

  1. Horários

Continuando a usar a ligação Viana do Castelo – Porto como referência, a única ligação que permite chegar antes das 9:00 em dias úteis, com exclusão do IC, é o Regional com partida pelas 6:37 e chegada pelas 8:35, após transbordo em Nine com uma espera de 20 minutos.

O IC, com partida pelas 7:36 e chegada às 8:43, veio demonstrar que é possível uma ligação competitiva pela manhã, compatível com o horário comercial.

Existem apenas quatro comboios Interregionais por dia em cada sentido e, a título de exemplo, cinco comboios regionais para ligação de Viana do Castelo para Norte.

A incompatibilidade com os horários comerciais e com os movimentos pendulares e a pouca frequência de ligações são mais dois factores que afastam os passageiros.

 

Apontamos como soluções para tornar a Linha do Minho uma alternativa competitiva para a mobilidade no Alto Minho:

  1. A curto prazo
  • Equiparação do preço/km ao praticado nos comboios urbanos do Porto;
  • Passes multimodais e com aplicação de descontos PART em condições de equidade;
  • Paragens nas principais cidades os Interregionais, Celta e IC (a partir de Viana) – Valença; Cerveira; Caminha; Âncora; Viana; Barcelos; Famalicão; Porto;
  • Acesso dos passageiros com passe ao Celta e IC (a partir de Viana) entre Valença e Porto.
  1. A médio prazo na sequência da eletrificação total
  • Aumento da frequência de comboios regionais para 30 minutos e inter-regionais para 60 minutos nos períodos de maior afluência e ajustada nos restantes;
  • Redução dos tempos de ligação, a título de exemplo na ligação Viana – Porto, para menos de 50 minutos.

 

Potenciar a Linha do Minho é não só um contributo para a mobilidade sustentável no eixo geográfico do Noroeste mas, também, a base para ligações internacionais de qualidade de toda a rede ferroviária nacional à Galiza e a toda a costa atlântica de Espanha.

 

Tiago Bonito 

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