REATIVAR AS CIRCULAÇÕES FERROVIÁRIAS REGIONAIS ENTRE VENDAS NOVAS E O BARREIRO COM LIGAÇÃO FLUVIAL A LISBOA

Dez 16, 2025

Vendas Novas é frequentemente vista como uma pequena cidade alentejana, mas a sua realidade socioeconómica é muito mais complexa: é simultaneamente um concelho pendular e um polo de emprego supramunicipal. Os Censos de 2021 mostram que 1.901 residentes — 30% da população residente empregada ou estudante — trabalhavam ou estudavam fora do concelho, valores acima da média do Alentejo e mais próximos dos municípios periféricos da Área Metropolitana de Lisboa (AML). Desses, apenas 74 utilizavam o comboio como meio de transporte, sendo predominante a utilização do automóvel individual. Hoje, devido às dinâmicas populacionais entretanto ocorridas e, principalmente, à introdução do Passe Verde, muito mais pessoas utilizam o comboio. Aliás, a oferta da CP é agora claramente insuficiente e desadequada. Aplicando os padrões de mobilidade regionais, estima-se que cerca de 1.500 pessoas viajem diariamente entre Vendas Novas e a AML, com elevados custos e longos tempos de deslocação.

Por outro lado, também já em 2001 o concelho apresentava fluxos significativos no sentido inverso: mais de mil pessoas deslocavam-se diariamente para trabalhar em Vendas Novas apesar de residirem noutros municípios, ocupando cerca de um quarto dos postos de trabalho locais.

A cidade, historicamente um dos nós ferroviários mais importantes a sul do Tejo desde 1861, viu, contudo, a ferrovia perder relevância para o automóvel, fruto da supressão do serviço ferroviário regional. Reativar a ligação ferroviária Vendas Novas–Barreiro como serviço regional (RG) de alta frequência — articulado com os barcos da Soflusa para o Terreiro do Paço — seria um passo decisivo para integrar o concelho na mobilidade metropolitana.

O atual Intercidades (IC) é insuficiente e não responde às necessidades diárias dos trabalhadores e estudantes. Criar uma alternativa de ligação a Lisboa, via Barreiro/transporte fluvial, justifica-se por, além de servir as tradicionais ligações regionais de proximidade, duas outras ordens de razão: primeira, a insuficiência de material circulante da CP que não permite injetar mais comboios do tipo IC neste vetor e, segunda, pela saturação do canal ferroviário que usa a ponte 25 de Abril. Um serviço com 6 a 8 circulações diárias permitiria reduzir tráfego e emissões na A6 e A2, aproximar Vendas Novas da AML, reforçar a coesão territorial e dinamizar a economia local com fluxos pendulares em ambos os sentidos. A capacidade de atração de novos moradores para Vendas Novas seria reforçada.

A infraestrutura existente permite já velocidades até 200 km/h, mas no troço Poceirão–Bombel, onde está limitada a 120 km/h, é necessária a modernização da via e de estações e apeadeiros. Estas obras, que incluem a duplicação do troço Poceirão a Bombel, estão já projetadas e com concurso lançado pelas Infraestruturas de Portugal, no âmbito do futuro eixo Lisboa–Madrid.

No entanto, mesmo antes da modernização, seria possível iniciar imediatamente um serviço regional com material circulante existente — bastando vontade política.

Os dados mostram que Vendas Novas vive numa relação diária estreita com a AML. Criar um serviço ferroviário regional, integrado tarifária e operacionalmente com o Navegante Metropolitano, seria mais do que um investimento em transportes: seria uma ponte quotidiana entre o Alentejo e Lisboa, assente em horários sincronizados, menor dependência automóvel e melhor qualidade de vida. Os horários propostos, que têm em conta a realidade operacional deste canal ferroviário, demonstram que a operação é tecnicamente viável e pode ser assegurada com apenas uma automotora elétrica UTE 2240 da CP. Os comboios regionais, com paragem em todas as estações e apeadeiros entre Vendas Novas e Poceirão, exceto Bombel, percorrerão a distância até ao Barreiro em 44 minutos. Os tempos totais de percurso entre Vendas Novas e Lisboa, e vice-versa, integrando o modo fluvial, são bastante competitivos para uma ligação de carácter regional, mesmo quando comparados com o Intercidades.

António Alves, membro da Direção da Associação Comboios XXI*

Hugo Leandro, membro da Associação Comboios XXI, geógrafo

*A Associação Comboios XXI (comboiosxxi.org) tem como missão promover e difundir o estudo científico e técnico da temática do transporte ferroviário e da sua envolvente.

 

COMBOIOS ASCENDENTES

IC591 RG4803 IC593 RG4805 RG4807 IC791 RG4809 IC595 RG4811 IC599 RG4813
LISBOA ORIENTE 7:02 9:02 13:35 17:02 19:02
TERREIRO PAÇO 7:20 10:25 12:25 16:00 18:50 20:35
BARREIRO MAR 7:40 10:50 12:50 16:20 19:10 20:55
BARREIRO 7:47 11:07 13:07 16:40 19:20 21:13
PINHAL NOVO 7:47 7:59 9:47 11:19 13:19 14:20 16:52 17:47 19:32 19:47 21:25
POCEIRÃO 7:56 8:10 11:30 13:30 17:03 19:44 21:36
Fernando Pó 8:00 8:14 11:34 13:34 17:07 19:48 21:40
PEGÕES 8:05 8:19 11:39 13:39 17:12 19:53 21:45
S.J. Craveiras 8:09 8:22 11:42 13:42 17:15 19:56 21:48
BOMBEL
VENDAS NOVAS 8:17 8:31 10:09 11:51 13:51 14:42 17:31 18:09 20:04 20:09 21:57
Tempo total de Lisboa Oriente/Terreiro do Paço até Vendas Novas 1:15 1:11 1:07 1:26 1:26 1:07 1:31 1:07 1:14 1:07 1:22


COMBOIOS DESCENDENTES

RG4804 IC690 RG4806 IC692 IC698 RG4808 RG4810 IC694 RG4812 IC696 RG4814
VENDAS NOVAS 6:07 7:31 8:56 9:31 12:00 12:17 14:06 17:22 18:10 19:31 20:14
BOMBEL 8:59
S.J. Craveiras 6:14 9:03 12:24 14:13 17:28 18:17 20:21
PEGÕES 6:17 9:06 12:27 14:16 17:32 18:20 20:24
Fernando Pó 6:22 9:12 12:32 14:21 17:37 18:25 20:29
POCEIRÃO 6:26 9:16 12:36 14:25 17:42 18:29 20:33
PINHAL NOVO 6:37 7:52 9:26 9:52 12:22 12:47 14:37 17:50 18:41 19:52 20:45
BARREIRO 6:51 9:39 12:59 14:51 18:54 20:57
BARREIRO MAR 7:00 9:55 13:25 15:10 19:00 21:25
TERREIRO PAÇO 7:20 10:20 13:50 15:30 19:20 21:50
LISBOA ORIENTE 08:36 10:36 13:06 18:36 20:36
Tempo Total de Vendas Novas até Terreiro do Paço/ Lisboa Oriente 1:13 01:05 1:24 1:05 1:06 1:33 1:24 1:14 1:10 1:05 1:36

Este artigo foi originalmente publicado na Gazeta de Vendas Novas